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Alameda Research corre risco de falir? Entenda embate entre Binance e FTX

Alameda e FTX

O CEO da Binance, Changpeng “CZ” Zhao, disse que a empresa liquidará a totalidade de sua posição em FTT, token nativo da corretora rival FTX. Para que fique mais claro, a Binance recebeu US$ 2.1 bilhões em BUSD e FTT em 2021 como parte de sua saída do equity da FTX. Agora, caso o iminente despejo se confirme em sua integralidade, o montante seria capaz de liquidar todos os empréstimos garantidos em FTT por parte da Alameda Research.

Caso da corretora FTX volta a aumentar insegurança do mercado cripto!

Changpeng afirmou que a decisão foi tomada após “recentes revelações que foram trazidas à tona”, ressaltando que não apoiará pessoas que fazem lobby pelas costas contra outros players do setor. A afirmação se dá em um contexto onde rumores sugerem que funcionários da FTX agiam nos bastidores tentando minar a Binance para os órgãos regulatórios responsáveis.

Apesar disto, Changpeng afirma que realizará as vendas de forma a minimizar os impactos no mercado em razão das condições atuais e da liquidez limitada, processo que deverá levar alguns meses para acontecer. O CZ afirmou que sempre encoraja a colaboração entre players da indústria e que este não é um movimento contra a competidora FTX, e sim uma redução de riscos para evitar um eventual novo caso no estilo “LUNA crash”.

E por falar no episódio da LUNA, importante lembrar que Sam Bankman-Fried, fundador da Alameda Research e da FTX, aproveitou-se da oportunidade à época para alavancar ainda mais seus negócios, firmando um contrato com cláusula de opção de compra da BlockFi por US$ 240 milhões, realizando lances pelos ativos da Voyager Digital, considerando adquirir a Celsius, etc. No entanto, nos bastidores, algumas fragilidades já começavam a aparecer.

Primeiramente, vimos o CEO da Alameda Research, Sam Trabucco, renunciando ao cargo no final de agosto. Um mês depois, o presidente da FTX, Brett Harrison também abandonou a função. Esses episódios ocorreram logo antes da revelação de que a FTX estava enfrentando problemas jurídicos em uma investigação da Texas Securities Regulation.

Agora, de acordo com relatórios vazados recentemente sobre o balanço da Alameda Research, bilhões de dólares em ativos da empresa estão vinculados ao token da FTX. E a arquitetura pode ser completamente insustentável. Vamos entender o atual panorama. Basicamente, a partir das análises feitas, podemos estar diante da seguinte dinâmica:

  1. FTX emite tokens FTT a partir “do nada”.
  2. FTX empresta esses FTT para a Alameda Research
  3. Alameda toma empréstimo de USD Stablecoins em troca das FTTs
  4. Alameda envia as stablecoins em USD para a FTX
  5. Repete-se o processo indefinidamente
ciclo Alameda e FTX
Fonte: Duo Nine

 

Dado o cenário, crescem os receios relacionados a problemas de ausência de liquidez e insolvência da FTX, impulsionando um forte movimento de corrida para sacar ativos da corretora. Podemos observar este movimento acontecer quando notamos o maior fluxo de outflow de stablecoins da história.

Alameda e FTX gráfico cryptoquant

Fonte: Cryptoquant – Caueconomy

 

A partir de dados on-chain, podemos ver alguns players fornecendo liquidez para a corretora no intuito de manter sua capacidade de reserva, como a Jump Trading que já enviou cerca de US$ 35 milhões. Além dela, a própria Alameda Research é responsável pelo envio de US$ 66.010.224 até o momento, além de se oferecer publicamente para pagar US$ 22 por cada token que a Binance planeja despejar no mercado, tentando defender a todo custo esta faixa de preço e dando indícios de que este pode ser o preço de liquidação dos contratos de tomadas de empréstimo de USD que citamos lá no início do texto.

Vale lembrar que, de acordo com a Coindesk, a Alameda tem US$ 8 bilhões em passivos, dos quais US$ 7.4 bilhões são empréstimos com outros US$ 292 milhões em tokens FTT devidos, e o restante não identificado. Por outro lado, possui US$ 14.6 bilhões em ativos divididos da seguinte forma:

  • US$ 3.66 bilhões em FTT desbloqueadas
  • US$ 2.16 bilhões em FTT collateral
  • US$ 3.37 bilhões em outras criptos (“Crypto Held”)
  • US$ 292 milhões em SOL desbloqueadas
  • US$ 863 milhões em SOL bloqueadas
  • US$ 41 milhões em SOL collateral
  • Alguns outros tokens mencionados como: SRM, MAPS, OXY e FIDA em quantias pequenas.
  • US$ 134 milhões em USD
  • US$ 2 bilhões em equity securities

Em suma, os vazamentos financeiros demonstram que o maior ativo da empresa é justamente sua participação no FTX Token (FTT), emitido justamente pela corretora FTX, da mesma empresa “mãe”. O FTT representa cerca de 1/3 dos ativos totais e 88% do patrimônio líquido da Alameda.

Observamos que atualmente, o market cap do FTX Token (FTT) é de US$ 2.986.141.792, enquanto o market cap totalmente diluído (Fully Diluted Market Cap) é de US$ 7.350.257.764. Assim, conclui-se que os US$ 5.82 bi em FTT no balanço da Alameda (FTT + FTT collateral) não correspondem ao capital real do market cap. Constata-se que não se pode vender US$ 1 milhão em FTT, por exemplo, sem jogar o mercado significativamente para baixo.

Alameda e FTX ação
Fonte: CoinGecko

 

Além disto, ao observarmos novamente os dados on-chain, verificamos que a titularidade dos tokens FTT é, como esperado, bastante concentrada, com aproximadamente 93% – mais especificamente, 92.8636% – do total de tokens sendo detidos por somente 10 endereços.

FTT top 10 token holders

Fonte: Etherscan

 

Outro ponto de atenção é o número de endereços ativos na rede transacionando FTT constantemente. De acordo com a Messari, em geral, vemos somente 180-200 endereços, o que mostra o baixíssimo número de indivíduos que são holders do ativo. Quando comparamos o token com outro de market cap parecido, como a Chainlink, vemos que o segundo projeto possui mais de 10x o número de carteiras ativas do que vemos com FTT.

No mês passado, o volume diário de negociação de FTT variou entre US$ 6 milhões e US$ 42 milhões. Já o de LINK, entre US$ 25 milhões e US$ 173 milhões, aproximadamente quatro vezes maior.

Em outras palavras, tudo isto para dizer que a maior parte do patrimônio líquido da empresa é atrelado a uma altcoin bastante ilíquida, sem volume de negociação e impressa justamente pelo próprio grupo. E fica o questionamento sobre que “FTT collateral” é aquele visto no balanço? Provavelmente, estamos nos deparando com o capital emitido/impresso pela FTX que falamos na dinâmica insustentável lá no início.

A situação é bastante perigosa, e é justamente destes riscos que a Binance deve se referir ao ter tomado sua decisão. Ainda que o balanço da Alameda seja maior do que o reportado pela Coindesk, a dinâmica de estruturação é extremamente frágil e insustentável. As finanças da Alameda Research parecem estar configuradas exatamente no mesmo esquema que destruiu a Celsius Network. Vejamos os próximos capítulos!

Caio Goetze

Formado em Direito pela PUC-RJ e pós-graduando em Direito Digital pelo Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS) em parceria com a UERJ, conta com 3 anos de experiência e diversos cursos de formação acadêmica de bagagem no “criptomercado”.

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